quarta-feira, 25 de maio de 2011

Arte e Mágica

"Mágica, em sua forma mais antiga, é frequentemente chamada de 'a arte'. Eu acredito que isso seja completamente literal. Eu acredito que mágica é arte e que arte, seja a escrita, música, escultura ou qualquer outra forma, é literalmente mágica. Arte é, assim como mágica, a ciência de manipulação de símbolos, palavras ou imagens, para alcançar mudanças na consciência." Alan Moore

* retirada do filme "The Mindscape of Alan Moore", que pode ser visto aqui (com legendas em inglês) -> http://www.youtube.com/watch?v=rvcPVxzhTLQ&feature=channel_video_title
*tradução minha

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Como ?

Notívago, caminho por entre os meus
Mas o que tem de meus esses outros?
Entre os que reagem e os que se conformam
Transito, universal, porém alheio aos arredores
Eu sou você e você é o que sou.
Mas tenho me sentido cada vez mais eu...

Contraditório, almejo o amor universal
Mas odeio quem não deseja o mesmo
Quero que todos alcancem a liberdade
Mas aprisiono os que não querem isso

Quase não vejo soluções, mas as procuro
Coleciono possibilidades de mudar o mundo
E vou nutrindo raiva de quem acha
que tudo está bem...

Assim, se meu próprio interior está em guerra
Como posso impedir que, fora de mim, se travem batalhas?
Se eu mesmo ataco e desrespeito meu organismo
Como posso querer que não destruam a Terra, corpo da humanidade?

Se eu mesmo me afasto de minha Alma
Como desejar que todos se aproximem do Grande Espírito?

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Precioso ser

É preciso ser alguma coisa.
Qualquer coisa, mas não uma coisa qualquer.
É preciso Ser, bem mais do que só existir.
Se encontrar, e se colocar.
Quem sabe até compartilhar o que você é com outrem.
Sê, e para isso se faça. Como você achar melhor.
Seja aquilo que você quiser. Sem grandes concessões.

quarta-feira, 30 de março de 2011

A responsabilidade do homem

"[...] Nessas condições, não é por nosso pessimismo que nos acusam, mas, no fundo, pela dureza de nosso otimismo. Se certas pessoas nos censuram por descrevermos seres pusilânimes, fracos, covardes, e, por vezes, francamente maus, em nossas obras de ficção, não é unicamente porque eles são pusilânimes, fracos, covardes ou maus, pois, se fizéssemos como Zola e declarássemos que eles assim são devido à hereditariedade, por influência do meio, da sociedade, por um determinismo orgânico ou psicológico, todos se tranquilizariam e diriam: aí está, somos assim e ninguém pode fazer nada; o existencialista, porém, quando descreve um covarde, afirma que esse covarde é responsável por sua covardia. Ele não é assim por ter um coração, um pulmão ou um cérebro covardes; ele não é assim devido a uma qualquer organização fisiológica; mas é assim porque se construiu como covarde mediante seus atos. Não existe temperamento covarde; existem temperamentos nervosos, existem pessoas que têm 'sangue fraco' como diz o povo, ou temperamentos ricos; mas o homem que tem sangue fraco nem por isso é um covarde, pois o que cria a covardia é o ato de renunciar ou de ceder: um temperamento não é um ato e o covarde se define pelos atos que pratica. O que as pessoas, obscuramente, sentem, e que as atemoriza, é que o covarde que nós lhes apresentamos é culpado por sua covardia. O que as pessoas querem é que nasçamos covardes ou heróis. Uma das críticas mais frequentemente feitas aos Caminhos da Liberdade pode ser formulada desse modo: 'Mas, afinal, esses seres tão fracos, como poderão ser transformados em heróis?' Tal objeção é um tanto ridícula, pois pressupõe que as pessoas nasçam heróis. E, no fundo, é isso que todos desejam pensar: se eu nasço covarde, posso viver em perfeita paz, nada posso fazer, serei covarde a vida inteira, o que quer que eu faça; se nasço herói, também viverei inteiramente tranquilo, serei herói durante a vida toda, beberei como um herói, comerei como um herói. O que o existencialista afirma é que o covarde se faz covarde, que o herói se faz herói; existe sempre, para o covarde, uma possibilidade de não mais ser covarde, e, para o herói, de deixar de o ser. O que conta é o engajamento total, e não é com um caso particular, uma ação particular, que alguém se engaja totalmente. [...]"

(Jean-Paul Sartre, em defesa do existencialismo, no texto "O existencialismo é um humanismo")

terça-feira, 1 de março de 2011

O Violão




"O violão, em sua simplicidade, mesmo quando o pinho tosco se cobre de vernizes e arabescos em madrepérola e pedrarías, parece ter sido creado para a linguagem sonora e sincera dos simples; dos que sofrem e se queixam, dos que acreditam na poesia das frases musicais; dos que estão sós e precisam falar consigo mesmo sem parecer que estão loucos; dos que não sabem declarar o seu amor como os demais; dos que precisam fugir a realidade, seca por demais para ser aceita sem um pouco de harmonía..."

(trecho de um texto de Nazareno de Brito, extraído da contracapa do LP "Abismo de Rosas", de Dilermando Reis. Imagem obtida aqui.)


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Shhh . . .

O silêncio, mais uma vez, grita. Impõe sua calada voz sobre a noite. Todos os bicos se abrem, alamedas se lotam, vazios se enchem, sem que haja algum som. Qualquer sim para o som.
Em elaborado movimento, sem incomodar qualquer vizinhança, sobe-se mais um muro ou escada, que tenta alcançar o silêncio do espaço sideral... em vão. Entre os vazios desse infinito imaginar surgem, sobressalentes, pautas vazias de notas grifadas, compassos sem tempos. Sem Tempo.
Os sons, que os passos das horas e segundos fazem ao tocar o chão, são quimeras de cobre ou chumbo que, alquímicas, tentam se transmutar na própria não-substância da qual é feito o Nada.
E quase nada ou pouco é feito para cessar a necessidade dos próprios caminhos de vento de serem preenchidos e cortados por novos ares.

Pois... que se faça o gri ... to ... do ... si ... lên ... cio.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Não: não digas nada!

Um dos meus poemas favoritos da vasta obra do Fernando Pessoa é esse. Parece muito simples, mas a forma é muito rebuscada, e o conteúdo vai à essência. Pra que dizer? Deixe que o mestre diga ...

    Não: não digas nada!
    Supor o que dirá
    A tua boca velada
    É ouvi-lo já

    É ouvi-lo melhor
    Do que o dirias.
    O que és não vem à flor
    Das frases e dos dias.

    És melhor do que tu.
    Não digas nada: sê!
    Graça do corpo nu
    Que invisível se vê.

    Fernando Pessoa, 5/6-2-1931
E a grande banda brasileira Secos & Molhados ainda fez uma versão musical para o poema do sábio esquizofrênico português. Muito bonita, por sinal. Ouça aqui.