Andar descalço ao seu lado, e comparar o tamanho dos pés (e rir pelo seu ser bem menor). Inocência quase infantil, viver lúdico. Fazer cócegas na sua barriga, até você me implorar para parar, e depois que eu paro, você vem e desconta em mim, até me jogar no chão. O sol brilhando e iluminando o lindo gramado, no qual corremos até cansar, nos deitamos e nos amamos. E no meio dos sussurros ofegantes do amor, sorrir ao te ver completamente entregue, indefesa, em uma grande volúpia, da qual eu faço parte, e nos tornamos um só ser. Fazer carinho em seus cabelos, com você em meu colo, e comentar sobre como gostamos daquele velho jazz, sobre como aquilo é uma beleza incomensurável. No meio de uma longa conversa, me dar conta de como seu sorriso é lindo, e ver seus olhos brilharem de timidez e deleite com o meu comentário. Você ficando brava e dando pequenos socos em meu braço quando eu olho uma moça bonita passar na rua, mas depois me desculpando com um beijo que me faz esquecer qualquer rabo de saia. Eu segurando seu corpo na água do mar, pra você boiar sem preocupação, e esquecer as agruras da vida. O velho clichê: ficarmos deitados contando as estrelas, ou as nuvens, se for dia. Tomar um porre juntos, eu tocando meu violão e nós cantando, depois rindo, depois fazendo amor e dormindo imediatamente após, com você aninhada em meu peito. E o mundo se torna isso: você e eu, e todos esses pequenos grandes prazeres.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
terça-feira, 2 de novembro de 2010
É óbvio
Entre soluços ... uma solução ?
Entre esboços ... uma resolução ?
Se você quiser, pode me dar
seu futuro de presente.
E eu passo a limpo
todo meu passado,
e preencho
o furo do meu futuro.
Quero somente o óbvio que vem
na medida do bom ócio.
segunda-feira, 18 de outubro de 2010
Admirável homem novo
"Vemos, pois, que a tecnologia moderna tem conduzido à concentração do poder econômico e político, e ao desenvolvimento de uma sociedade controlada (implacavelmente nos estados totalitários, polida e imperceptivelmente nas democracias) pelo Alto Negócio e pelo Alto Governo. Mas as sociedades são compostas de indivíduos e só são boas na medida em que ajudam os indivíduos a realizarem suas potencialidades e conduzem a uma vida feliz e criadora. Como é que os indivíduos foram afetados pelos progressos técnicos dos anos recentes? Eis a resposta dada a esta interrogação por um filósofo-psiquiatra, Dr. Eric Fromm: 'A nossa sociedade ocidental contemporânea, a despeito do seu progresso material, intelectual e político, conduz cada vez menos à saúde mental, e tende a sabotar a segurança interior, a felicidade, a razão e a capacidade de amor no indivíduo; tende a transformá-lo num autômato que paga o seu fracasso humano com as doenças mentais cada vez mais frequentes e desespero oculto sob um frenesi pelo trabalho e pelo chamado prazer.'
As nossas 'doenças mentais cada vez mais frequentes' podem achar expressão em sintomas neuróticos. Estes sintomas são evidentes e extremamente perigosos. Mas, 'guardemo-nos', diz o Dr. Fromm, 'de definir a higiene mental como prevenção de sintomas. Os sintomas, como tais, não são nossos inimigos, mas nossos amigos; onde há sintomas há conflito, e conflito indica sempre que as forças da vida, que porfiam pela harmonização e pela felicidade, ainda lutam. As vítimas de doença mental realmente perdidas encontram-se entre aqueles que parecem mais normais. 'Muitos daqueles que são normais, são-no porque se encontram tão bem adaptados ao nosso modo de existência, porque as suas vozes humanas foram reduzidas ao silêncio tão cedo em suas vidas, que nem lutam, ou sofrem, ou exibem sintomas como o neurótico.' São normais, não no que pode chamar-se o sentido absoluto da palavra; são normais somente em relação a uma sociedade profundamente anormal. O seu perfeito ajustamento a esta sociedade anormal dá a medida da sua doença mental. Estes milhões de pessoas anormalmente normais que vivem sem ruído numa sociedade a que, se fossem seres plenamente humanos, não deveriam estar adaptados, ainda acariciam 'a ilusão da individualidade', mas de fato foram em larga medida des-individualizados. A sua conformidade está a evoluir para algo como a uniformidade. Mas, 'uniformidade e liberdade são incompatíveis. A uniformidade e a saúde mental são igualmente incompatíveis... O homem não está feito para ser um autômato, e se se transforma em autômato, a base da sua saúde mental está destruída'"
HUXLEY, Aldous. Regresso ao Admirável Mundo Novo. Lisboa: Livros do Brasil. (ano não informado). p. 50-52
domingo, 17 de outubro de 2010
Gente que viaja
Alguns passam apressados, para que não percam o horário de partida. Outros, mais lentos, têm tempo, ou já o perderam. Quando em vez, alguém parece estar sem destino. Quem são ?
Famílias que viajam de mudança, procurando novos ares e esperanças. Preocupados viajantes que vão à negócios, fechar um acordo, ou desfazer. Pessoas com saudades ou que, apenas por necessidade, vão visitar parentes, rever amigos, conferir como estão os lugares onde cresceram, e dos quais a vida os afastou.
Atrasados, tristes, esperançosos, automáticos, triunfantes, saudosos, sérios, despreocupados.
Até quem sabe ... por um olhar e pela bagagem, me pareceu que uma alma solta e vaga escolheu um destino qualquer, por querer uma vida completamente nova, esquecendo de si mesmo, ou por participar do grupo das almas aventureiras, que se partilham em mil, são todos nós e ninguém, e carregam o peso de todas as solidões. As solidões dos viajantes, de todos, que rumam ao lugar incerto.
Algumas passagens custam pouco. Outras, tiveram como preço as últimas economias do viajante; nesses passes estão depositadas esperanças de renovação, algo que vale como a última chance, derradeira tentativa da pessoa que tem o brilho da fé em seus olhos. São muito mais que passagens, são chances de uma nova vida.
E das mais variadas formas, múltiplos comportamentos, os objetivos, os sonhadores, os saudosos e os sem destino: todos trocam olhares e seguem seus passos, em um mesmo lugar.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
Passado por um rio
Era natural que isso acontecesse. Eu mudei, todos mudaram.
E foi preciso romper. Alcançar outro eu, uma nova identidade, mais evoluída.
Quando olho para aquilo tudo, vejo senão o passado quase congelado.
E quando entro em contato, me sinto desconfortável ... como se entrasse num lugar onde a música não estava boa e, apesar de eu até poder me divertir um pouco, provavelmente o resultado final não seria bom, eu não me sentiria bem ali.
Como se eu tivesse pausado a imagem de um espelho, e anos depois olhasse para este mesmo espelho e não visse mais meu reflexo.
Agora, reconstruir. Galgar novas conquistas, ressignificar as velhas.
O ideal seria romper com certas coisas para além do poder da memória. Seria submergir meu ego, e emergir novo em folha.
Abandonar as reminiscências do passado, mas elas insistem em voltar. Meros devaneios tolos, a me torturar.
Ora, o ideal é quase sempre impossível. Sempre sobra algum peso do passado.
Mas já não há nada como era antes.
Um rio, da nascente à foz. Suas águas brotam do subterrâneo, rompem a escuridão do solo e impõem-se perante o ar livre. Ora suavemente, e às vezes em fluxo frenético, segue seu caminho por entre os relevos que, até certo ponto, o determinam. Passa pelas mais diferentes planícies, entre altas montanhas, cercado de densas florestas ou em campos abertos. E, finalmente, desemboca no mar. Ao longo de todo o seu curso, o rio sofreu inúmeras mudanças. Muito foi perdido e muito foi acrescentado. Sendo ele, apesar das diferenças em suas variadas alturas, o mesmo, suas partes se comunicam entre si. Melhor dizendo: as partes próximas à nascente se comunicam com as próximas à foz. Mandam seus fluidos para lá. Isso, o rio não pode evitar.
segunda-feira, 27 de setembro de 2010
Onironauta
Quando estou no mundo onírico, entrelaçado nas redes maravilhosas de Morfeu, não sei dizer se aquilo é realidade, aquela com a qual a gente está acostumado, ou não. Naquele mundo fantástico, o absurdo acontece, mas aos sentidos me parece que aquilo é tão real quanto qualquer outra coisa. Posso estar voando, organizando planos para derrotar os invasores alienígenas, qualquer coisa ... E tudo aparenta ser tão ou mais verossímil do que quando coloco meus pés descalços sobre o frio chão de madeira, e caminho em direção à água que lavará meu rosto.
E quando estou aqui, entre as paredes do cotidiano do mundo dito real, que talvez não seja mais real do que qualquer outra coisa fora da realidade, não posso me sentir como me sinto nos sonhos. As possibilidades se limitam, ficam quadradas, dentro de uma caixa. Em tudo há censura, há gravidade, há limitação corpórea. Sinto muitas vezes que isso aqui nem é tão real assim. Minha verdade particular esbarra nas outras e, do choque, sinto que estou acordado. E a maneira que encontro de me aproximar dos sonhos, mas tendo essa realidade como base, só é encontrada no torpor da embriaguez dos sentidos, seja qual for a causa desta. Um dia talvez eu acorde, tal qual Gregor Samsa na "Metamorfose", transformado em um gigante inseto. E, mesmo que seja a realidade dita real, ainda assim eu acharei que esse absurdo todo só pode ser um sonho.
Acordei um dia e senti o silêncio total. Senão de minha parte, não havia qualquer movimento ou ruido. Saí nas ruas e não encontrei viva alma. Nem animais, nem humanos. Depois de algum tempo, vi que estava completamente sozinho na Terra. Pude constatar isso ao sobrevoar cada metro quadrado do planeta, num bater de braços tão rápido quanto o som. Ao chegar no Japão, me entediei e resolvi voltar para casa. Chegando lá, preparei um chá de patas de galinha e deixei esquentar na geladeira. Joguei o chá sobre minha cabeça, e fui dormir. Sonhei então que eu, sentado confortavelmente em uma cadeira, escrevia um texto sobre os sonhos.
quinta-feira, 23 de setembro de 2010
Antimonotonia
"Muito se teria de dizer sobre esse contentamento e essa ausência de dor, sobre esses dias suportáveis e submissos, nos quais nem o sofrimento nem o prazer se manifestam, em que tudo apenas murmura e parece andar na ponta dos pés. Mas o pior de tudo é que tal contentamento é exatamente o que não posso suportar. Após um curto instante parece-me odioso e repugnante. Então, desesperado, tenho de escapar a outras regiões, se possível a caminho do prazer, se não, a caminho da dor. Quando não encontro nem um nem outro e respiro a morna mediocridade dos dias chamados bons, sinto-me tão dolorido e miserável em minha alma infantil, que atiro a enferrujada lira do agradecimento à cara satisfeita do sonolento deus, preferindo sentir em mim uma verdadeira dor infernal do que essa saudável temperatura de um quarto aquecido. Arde então em mim um selvagem anseio de sensações fortes, um ardor pela vida desregrada, baixa, normal e estéril, bem como um desejo louco de destruir algo, seja um armazém ou uma catedral, ou a mim mesmo, de cometer loucuras temerárias, de arrancar a cabeleira de alguns ídolos venerandos, de entregar a um casal de estudantes rebeldes os ansiados bilhetes de passagem para Hamburgo, de violar uma jovem ou de torcer o pescoço a algum defensor da ordem e da lei. Pois o que eu odiava mais profundamente e maldizia mais, era aquela satisfação, aquela saúde, aquela comodidade, esse otimismo bem cuidado dos cidadãos, essa educação adiposa e saudável do medíocre, do normal, do acomodado."
HESSE, Herman. O lobo da estepe. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
HESSE, Herman. O lobo da estepe. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.
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