terça-feira, 1 de março de 2011

O Violão




"O violão, em sua simplicidade, mesmo quando o pinho tosco se cobre de vernizes e arabescos em madrepérola e pedrarías, parece ter sido creado para a linguagem sonora e sincera dos simples; dos que sofrem e se queixam, dos que acreditam na poesia das frases musicais; dos que estão sós e precisam falar consigo mesmo sem parecer que estão loucos; dos que não sabem declarar o seu amor como os demais; dos que precisam fugir a realidade, seca por demais para ser aceita sem um pouco de harmonía..."

(trecho de um texto de Nazareno de Brito, extraído da contracapa do LP "Abismo de Rosas", de Dilermando Reis. Imagem obtida aqui.)


sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Shhh . . .

O silêncio, mais uma vez, grita. Impõe sua calada voz sobre a noite. Todos os bicos se abrem, alamedas se lotam, vazios se enchem, sem que haja algum som. Qualquer sim para o som.
Em elaborado movimento, sem incomodar qualquer vizinhança, sobe-se mais um muro ou escada, que tenta alcançar o silêncio do espaço sideral... em vão. Entre os vazios desse infinito imaginar surgem, sobressalentes, pautas vazias de notas grifadas, compassos sem tempos. Sem Tempo.
Os sons, que os passos das horas e segundos fazem ao tocar o chão, são quimeras de cobre ou chumbo que, alquímicas, tentam se transmutar na própria não-substância da qual é feito o Nada.
E quase nada ou pouco é feito para cessar a necessidade dos próprios caminhos de vento de serem preenchidos e cortados por novos ares.

Pois... que se faça o gri ... to ... do ... si ... lên ... cio.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Não: não digas nada!

Um dos meus poemas favoritos da vasta obra do Fernando Pessoa é esse. Parece muito simples, mas a forma é muito rebuscada, e o conteúdo vai à essência. Pra que dizer? Deixe que o mestre diga ...

    Não: não digas nada!
    Supor o que dirá
    A tua boca velada
    É ouvi-lo já

    É ouvi-lo melhor
    Do que o dirias.
    O que és não vem à flor
    Das frases e dos dias.

    És melhor do que tu.
    Não digas nada: sê!
    Graça do corpo nu
    Que invisível se vê.

    Fernando Pessoa, 5/6-2-1931
E a grande banda brasileira Secos & Molhados ainda fez uma versão musical para o poema do sábio esquizofrênico português. Muito bonita, por sinal. Ouça aqui.

domingo, 2 de janeiro de 2011

Uma Eternidade

Vincent van Gogh - "No limiar da eternidade" – 1890 - óleo sobre tela 80cm X 64cm, Museu Kröller-Müller - Holanda


"Um cinema. Um filme. Apático, você entra. Como não há porteiro, nem lanterninha, você toma assento na platéia, onde três outras pessoas, uma bem longe da outra, também aguardam. As luzes estão acesas e não há musiquinha de fundo. Você espera, ansioso. As outras três pessoas olham estáticas, robotizadas, para a tela branca. Passa-se meia hora, uma hora e o filme não começa. Já farto, você sai do cinema e é acuado na calçada por dois cães que começam a ganir, salivando e arreganhando os dentes afiados. Assustado, você entra de novo na sala do cinema e senta-se, resignado, numa poltrona. E volta a olhar para a tela nua. Lá fora, os dois cães continuam em guarda."

("A eternidade", de Furio Lonza, publicado na revista "Chiclete com Banana" n° 18, de abril de 1989)

quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Derretendo

Meus dedos estão derretendo. Enquanto minha pele, ossos, músculos e sangue escorrem derretidos por meu braço, eu penso em alguma coisa que poderia evitar o derretimento do meu corpo físico, que já ocorria. Pelo menos meu cérebro ainda não começou a derreter, mas é só uma questão de tempo. Será que, quando meu cérebro começar a derreter, eu perderei as funções vitais mas continuarei consciente por algum tempo? Bom, não é hora de me preocupar com isso, pois meus braços estão quase que completamente transformados em um líquido viscoso. Minhas pernas também estão em estado crítico. O que me espanta é que não sinto dor ... e à medida que vou me desfazendo do meu corpo, ou ele vai se livrando de mim, sinto uma clareza de pensamentos que nunca senti antes. Quase posso alcançar o céu. Sinto que perder meu cérebro não fará muita diferença nesse momento, pois já virei luz. E o que sobrou do meu corpo escorre pelo ralo mais próximo. E eu já não sou mais quem eu pensava ser, tampouco o que via no reflexo do espelho. Então eu sou um par de asas. Eu vou sair daqui agora, eu vou voar, atingir o espaço, todo o espaço. Já não tenho mais forma definida, e já não sou mais preso pelo tempo. Eu sou o espaço e o espaço é o que sou. Onipresente e atemporal ...

(texto escrito em 2006)

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Você

Andar descalço ao seu lado, e comparar o tamanho dos pés (e rir pelo seu ser bem menor). Inocência quase infantil, viver lúdico. Fazer cócegas na sua barriga, até você me implorar para parar, e depois que eu paro, você vem e desconta em mim, até me jogar no chão. O sol brilhando e iluminando o lindo gramado, no qual corremos até cansar, nos deitamos e nos amamos. E no meio dos sussurros ofegantes do amor, sorrir ao te ver completamente entregue, indefesa, em uma grande volúpia, da qual eu faço parte, e nos tornamos um só ser. Fazer carinho em seus cabelos, com você em meu colo, e comentar sobre como gostamos daquele velho jazz, sobre como aquilo é uma beleza incomensurável. No meio de uma longa conversa, me dar conta de como seu sorriso é lindo, e ver seus olhos brilharem de timidez e deleite com o meu comentário. Você ficando brava e dando pequenos socos em meu braço quando eu olho uma moça bonita passar na rua, mas depois me desculpando com um beijo que me faz esquecer qualquer rabo de saia. Eu segurando seu corpo na água do mar, pra você boiar sem preocupação, e esquecer as agruras da vida. O velho clichê: ficarmos deitados contando as estrelas, ou as nuvens, se for dia. Tomar um porre juntos, eu tocando meu violão e nós cantando, depois rindo, depois fazendo amor e dormindo imediatamente após, com você aninhada em meu peito. E o mundo se torna isso: você e eu, e todos esses pequenos grandes prazeres.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

É óbvio

Entre soluços ... uma solução ?
Entre esboços ... uma resolução ?

Se você quiser, pode me dar
seu futuro de presente.
E eu passo a limpo
todo meu passado,
e preencho
o furo do meu futuro.

Quero somente o óbvio que vem
na medida do bom ócio.