quarta-feira, 14 de maio de 2014

Sem nome ou Uni Versos

Espiando a lua cheia
E as esparsas nuvens
Que dançavam logo abaixo
Com suas formas vagas
E cores transformadas
Pelo brilho do satélite
Naquela transparência
Pude observar
Todo o universo

domingo, 6 de abril de 2014

Presença

Venus brilhava forte no céu. De repente, cessaram os violões e tambores. Um silêncio de respeito e veneração se fez, e então somente as vozes entoaram seu canto. Com o clamor, Oxum se fez presente. Era possível sentir sua presença e, ao fechar os olhos, ela dançava em águas, iluminando de azul as mais doces visões. Como uma mãe, embalando nosso sono de criança. Esmeralda fina, abençoando os presentes. Então os cânticos cessaram, e novamente a quietude, já plena de bênção, se instaurou. Talvez que ela tenha ficado para a festa, talvez que tenha saído. Mas esteve ali, agraciando com sua grandiosa presença. Aiêê Mamãe Oxum...

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

Sobre o Som


"Não há som sem pausa. O tímpano auditivo entraria em espasmo. O som é presença e ausência,e está, por menos que isso apareça, permeado de silêncio. Há tantos ou mais silêncios quantos sons no som, e por isso se pode dizer, com John Cage, que 'nenhum som teme o silêncio que o extingue. Mas também, de maneira reversa, há sempre som dentro do silêncio: mesmo quando não ouvimos os barulhos do mundo, fechados numa cabine à prova de som, ouvimos o barulhismo do nosso próprio corpo produtor/receptor de ruídos (refiro-me à experiência de John Cage, que se tornou a seu modo um marco na música contemporânea, e que diz que, isolados experimentalmente de todo ruído externo, escutamos no mínimo o som grave da nossa pulsação sanguínea e o agudo do nosso sistema nervoso).
O mundo se apresenta suficientemente espaçado (quanto mais nos aproximamos de suas texturas mínimas) para estar sempre vazado de vazios, e concreto de sobra para nunca deixar de provocar barulho."

Zé Miguel Wisnik, em "O Som e o Sentido"

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A motoserra e o trovão

Aqui nesta cidade, na rua ao lado, estão cortando uma árvore com uma motoserra. Ao acordar assustado com o incômodo ruído produzido por tal ato, e após recuperar um pouco as faculdades mentais do estado de vigília, começo a pensar no simbolismo que o fato carrega. O barulho é quase insuportável, sobretudo para os ouvidos mais sensíveis. É a própria definição de poluição sonora. Alguém sobe em uma plataforma, escada, ou na própria planta, com um objeto altamente cortante, movido a combustível, corta seus grossos galhos, e nesse gesto são produzidos os tais ruídos. Talvez seja mesmo necessário: a árvore poderia estar velha, e a queda de uma parte sua poderia ferir gravemente um transeunte; ou ainda, a mesma poderia se enroscar na rede elétrica, causando um curto-circuito, ou algo similar. Porém, o que se pretende enfatizar aqui é a carga simbólica que esta ação carrega em si, não necessariamente como uma crítica urbanista de teor ecológico, ou como denúncia, mas sobretudo como uma despretensiosa apreciação estética. Para dizer o óbvio, a motoserra cortando a árvore representa o triunfo do ser humano sobre a natureza. Uma ferramenta desenvolvida, que numa sequência evolutiva remete desde itens rudimentares feitos de pedra ou ossos para cortar objetos, passando pela serra manual, e aqui chegando, poderosa, cortando até mesmo os mais espessos galhos, até o tronco se necessário, de uma frondosa planta. Mesmo tendo esta algo de grandioso, de imponente, seja por seu tamanho, pelo brilho radiante de suas lindas folhas verdes à luz do sol, tudo isso não é páreo para um objeto relativamente pequeno, que pode reduzir a árvore a pedaços em questão de horas, desfazendo, neste curto tempo, tudo o que aquela fez em, sabe-se lá, talvez uma centena de anos. O ritmo da cidade, dos transeuntes, fios elétricos, postes, carros, prédios, se impõe perante os passarinhos e seus ninhos, os saguis que vão se pendurando de galho em galho, gritando, os morcegos que sobrevoam em sua busca noturna por algum fruto. E aí, o que era tronco, galhos, folhas, se transforma em lenha, madeira, lixo. Os garis varrerão, sob o sol, os restos da planta de quem, sob sua sombra, antes varriam somente as folhas. Mas, voltemos ao som. Aquele penetrante, agudo, volumoso barulho produzido pelo ato do corte. Aquele grito estridente e sofrido de amputação, o choro final da perda da vida. Mas, além de ser um sofrimento, de parte da planta, também é o estrondoso brado do triunfo da máquina, ostentando sua vitória aos quatro cantos. Pois o farfalhar das folhas ao vento, e mesmo o canto dos passarinhos, saguis, e outros bichos que frequentam a árvore, não é nada se comparado ao retumbante ruído do metal violando a madeira. É o hino entoado pela vitória, sem ao menos precisar chegar ao fim da partida, gritos de quem já tem o jogo ganho. Mas me ocorre, ao tentar imaginar algo mais sonoramente potente de qualquer coisa que possa ser produzida pela mão humana, ou pelo menos equivalente, de lembrar do trovão. Esse belo e imponente elemento da natureza, faceta sonora da descarga elétrica do raio, contém grande poder. Pode se ouvir seu soberbo retumbar alto e claro a grandes distâncias do ponto em que ocorre, enquanto o relâmpago clareia o escuro céu. Quantas poderosas divindades ao redor do mundo, nas mais variadas culturas, não tem como privilégio o domínio dos raios? E estes, em apenas um piscar de olhos do céu, podem derrubar e incendiar aquela mesma árvore sendo cortada pela motoserra. Aí, a próxima coisa a se pensar é no para-raios. Uma genial invenção humana que previne os efeitos destrutivos dessas descargas elétricas celestes. Porém, restritamente em relação ao som, ou seja, ao trovão, nada pode ser feito, ao menos por enquanto. Por aqui, não chove há algum tempo. Contudo, aguardo ansiosamente pela chegada dessa poderosa música celeste.                  

segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Além

negros pântanos, e fumaça
e além daquilo, há o sol

pontes quebradas, não se passa
e além daquilo, há o sol

os passos seguem
um após o outro
como há de ser

e depois
o sol

haja o que houver

terça-feira, 4 de junho de 2013

Sobre ser o que se bem entende

A repressão à subjetividade inerente a cada um, à particularidade da expressão, do comportamento, das palavras e gestos de casa pessoa, não precisa passar necessariamente por instituições oficiais, por constituições e outras formas legislativas, por grandes consensos éticos e morais acordados pelo senso comum. Não. Ela pode estar naquela roda de amigos com os quais você vai ao bar, nas risadas emitidas quando você faz uma pergunta em um local público que desvia daquilo que é esperado, daquilo que é tido como normal. Pode estar num meio, inclusive, que se diz libertário, que prega a valorização e o respeito da opinião de cada um. Acho muito aceitável, necessário até, que não sejam levadas em conta as colocações e afirmativas que releguem outras pessoas a situações de exclusão e marginalização. Contudo, quando aquele ou aquela que se expressa, se coloca, o faz de maneira que somente afete a si mesma, considero que não deve haver, nesse caso, escárnio ou retaliação, de qualquer natureza. Ainda assim, o que se vê é que mesmo aqueles que respeitam a opção de cada um de fazerem o que bem entenderem com seus corpos, quando se colocam de maneira a não agradar os membros do nicho no qual estão inseridos, sofrem algum tipo de opressão. Ocorre a tentativa de se normatizar o comportamento daquele indivíduo, de maneira a que se ajuste ao "bando"; isso se passa mesmo nos grupos sociais ditos marginalizados, e que, à sua maneira, marginalizam também. Assim, a máquina capitalística de produção de subjetividade (nos dizeres de Félix Guattari) não precisa de soldados para vigiar, a todo o tempo, o comportamento desviante: as próprias pessoas comuns participam desse processo. Isso ocorre toda vez que uma determinada maneira de se vestir, de gesticular, de falar, determinados comportamentos alimentícios, sexuais, inclinações artísticas, entre outras coisas, são censuradas em um certo nível, inclusive por seus pares, mesmo sendo os próprios tidos como marginalizados em uma escala mais ampla. O músico Ian Mackaye coloca frequentemente, em entrevistas e palestras, quanto preconceito sofria por não beber ou usar drogas na cena punk da qual participava, onde fazer essas coisas era o comportamento padrão. É uma clara tendência, ao longo da história da humanidade, a exclusão e marginalização do diferente, do desviante, do autêntico, que também é o não-palatável, o não-aceitável, e cuja soma dessas características pode levar, finalmente, ao invisibilizado. E existem seres como estes mesmo dentro de grupos que possuem tais características. Seria uma contracultura na contracultura. O que está se defendendo aqui não é, de maneira alguma, uma rejeição à qualquer tipo de crítica, brincadeira saudável, ou até mesmo conselho, que possa levar à melhoria de algum comportamento possivelmente destrutivo da pessoa. O que se pretende é que abramos nossos olhos para o perigo de reproduzirmos os mesmos comportamentos repressores daqueles que estão "acima de nós", que o fazem sistematicamente. É um grito à liberdade de escolha, de ser o que você bem entender - mas sempre lembrando de que a pessoa ao seu lado também quer o mesmo, e cabe a cada um encontrar o limite entre a liberdade do outro e a sua.  

sábado, 1 de junho de 2013

Mais uma noite

A música está bem alta, meu cérebro nem sente, meu corpo sim. Meus cotovelos, eles estão encostados no balcão. Sempre estão. Se acostumaram com o duro e frio carinho da beira do bar. Por vezes, um deles fica sozinho, enquanto o outro vai dar uma olhada na fauna do recinto. Uma banda. Não fui com a cara do baixista, mas ele toca bem. Dou uma pequena risada interior por achar aquilo ali um tanto patético. Duas ou três pessoas simplesmente ficam assistindo ao show inteiro, cantando, numa espécie de submissão. Peço outra cerveja, veio bem gelada, minha boca se enche de saliva. Vejo uma mulher ruiva, pele muito branca, tatuagens pelo braço, parece bem quente, e minha boca se enche de saliva. Fico imaginando o que poderia estar fazendo com ela, num lugar bem longe daquela merda toda. Me recolho novamente. Bebida no copo, copo na boca, gota escorre pelo canto, limpo com o reverso da mão. O som, pesado e caótico, começa a me fazer bem, acho. De certa maneira, me identifico, me sinto familiarizado em meio àquele universo ruidoso. O ambiente se conforma ao meu espírito confuso. Preciso ir ao banheiro, vou, mijo. Lavo as mãos e jogo água na cara. Um pouco de náusea. Não comi direito hoje, venho bebendo há dias, o som alto, o escuro, as vozes que não param de falar e falar. Preciso sair daqui, mas antes tentarei vomitar. Tento, não consigo, e infelizmente não suporto a ideia de colocar um dedo na garganta. Saio tonto, e aviso um amigo que irei embora, pago o que devo, e vou apressadamente porta afora. Ando até o ponto de ônibus, ele demora mais do que eu gostaria, e vou pedindo carona - ninguém para - e cantarolando no meio tempo. Finalmente chega. Converso com o motorista, é simpático. Ele para em um ponto para que um cara que está no transporte com a gente compre algumas coisas, e acende um cigarro. Desço do ônibus, e peço um trago, ele me dá alguns. Voltamos, andamos mais um pouco, salto no ponto errado. Ando um pouco mais do que poderia, do que deveria, por ruas desertas na madrugada. Elas ficam tão bonitas na calada da noite, têm uma certa maturidade, uma misteriosa dignidade. Chego em casa, não me lembro bem o que faço. O telefone toca, e eu acordo: já é dia.