quinta-feira, 26 de agosto de 2010

Do alto da montanha

O meu time perdeu.
Minha artéria aorta não distribiu mais o sangue da mesma maneira.
Minha garota sumiu.
Meu pé já não se mexe do jeito que sambava.
Minha roupa manchou.
Minha guitarra não toca já os teus vinte anos de blues.
Meu sorriso murchou.
O pé de caju que eu tenho no quintal agora está cheio de pragas.

Vórtice frenético de mutações mundanas, dando um chute na bunda da alma.

É, bicho ... no fim aquela velha pergunta "quem sou eu ?" não parece tão piegas assim ...

Você pode fugir de tudo e de todos, mas não pode fugir de si mesmo. E quando você escala aquela alta montanha, que você teve tanto esforço pra subir, treinou tanto, tentou várias vezes antes de conseguir ... e quando você está lá em cima, e lança um grito, o mais forte possível, para o vasto horizonte que se apresenta diante de ti, e não encontra nele nenhum eco ... Quer dizer que você falhou, ou apenas constata que perdeu todo esse tempo escalando a montanha errada ?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Paisagem

Dos campos verdes quase escuros que se estendem ao olhar, os canais de água brilham em laranja fluorescente, em espirais que desafiam a gravidade.
Gaivotas pretas em linguagem antiga se comunicam e gorjeiam em rápido passeio pela superfície descampada.
Frenéticas mutações de múltiplas cores se agitam formando vórtices de sucção dos tempos que o observam.
Em suaves e depois intensas ondas, tapetes vermelhos desfibrilam o céu roxo já com muita pressa, antes que as nuvens pulsações cessem seu jogar de raios na superfície despovoada.
O eco de fantasmas murmurantes já se ouve de dentro das cavernas elevadas por sobre a terra, verdadeiros labirintos de escuridão infinita.
E todos os seres que ali voam, em direção das florestas do absurdo , se desfazem em intensos feixes de luz, derretendo metais que se transfiguram e escoam por vastos canais, em múltiplas direções.

[ouvindo um álbum do Tangerine Dream, "Phaedra", de 1974]

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Que sabe a Razão ?

"(...) Contudo, perdoai-me por ter-me posto assim a filosofar. Não o esqueçais: tenho quarenta anos de subsolo. Permiti me soltar as rédeas à minha fantasia. Vede, senhores, a razão é uma coisa excelente; isso é incontestável; mas a razão é a razão, e não satisfaz senão a faculdade de raciocínio do homem, enquanto o desejo é a expressão da totalidade da vida, isto é, da vida humana inteira, inclusive a razão e seus escrúpulos; e, se bem que nossa vida, tal como se exprime assim, se revista frequentemente de um aspecto muito velhaco, nem por isso é menos vida, e não a extração da raiz quadrada.
Assim comigo, por exemplo: quero viver, naturalmente, a fim de satisfazer minha faculdade de existência em sua totalidade e não para satisfazer unicamente minha faculdade de raciocínio, que não representa, em suma, senão a vigésima parte das forças que estão em mim. Que sabe a razão? A razão não sabe senão o que aprendeu (ela não saberá nunca outra coisa, provavelmente; e, embora isso não seja uma consolação, não o devemos dissimular), ao passo que a natureza humana age com todo o seu peso, por assim dizer, com tudo o que ela contém em si, consciente e inconscientemente; acontece-lhe cometer disparates, mas vive."

DOSTOIÉVSKI, Fiodor. Noites Brancas e outras histórias (trecho de "Memórias do Subsolo"). São Paulo: Editora Martin Claret, 2004.

terça-feira, 22 de junho de 2010

Desabafo

É um desabafo simples e inocente. Não chega nem a ser isso.

Mas ...como eu gostaria. Eu queria muito que houvessem reuniões mensais, quinzenais ou semanais, juntando um pessoal afim de ouvir uma música de boa qualidade, beber umas cervejas pra quem bebe, fumar uns cigarros pra quem fuma, e ficar apreciando canções, uma a uma. Que cada um fizesse comentários, com o cérebro ou com a alma, sobre a melodia, o arranjo, a harmonia, o timbre, a gravação mal feita, qualquer coisa. E que ficássemos ali, bebendo aquele doce mel das notas e acordes, cantos e ritmos daqueles sons de quaisquer que fossem as caixas. Ouvindo e compartilhando impressões, se emocionando individual ou coletivamente. Despretensiosamente. Sem objetivo nenhum que não a pureza, que não a amizade, que não o amor, que não a música, que não o prazer. Ah, como eu queria. Onde estão vocês ?

quarta-feira, 9 de junho de 2010

O sorriso do bêbado

E então o bêbado deitado no chão sujo, no meio da praça central daquela pequena cidade no coração ou no intestino do Brasil, esboça um sorriso desdentado. E logo depois dá uma gargalhada. Aquele olhar brilhante, embriagado, sem direção, completa o sorriso sem sentido, e com todo o sentido do mundo.
Uma expressão cheia de saudades, e carregada de pesada ironia. Como se aquele bêbado imundo jogado no chão fosse a alegoria de toda a condição humana.
Deve ter vivido o diabo, aquele senhor. Deve ter visto o que quis e o que não quis. Deve ter vivido enclausurado num dia, e com toda a liberdade de um pássaro num outro momento.
HAHAHA sua risada ri na cara de quem quer ver. Ri das pessoas que o ignoram como se ele fosse mais uma pedra daquela rua de paralelepípedo. Ri um riso louco e inocente, grito duma mente que já se esqueceu, mas de uma alma que não esquece as marcas que leva, e dum corpo quase sem luz, cujos últimos impulsos de vida provocam espasmos, vômitos e passos trôpegos pela calçada até o banco mais próximo, dormitório.
O bêbado é uma afronta aos hospitais, farmácias, metrôs e outros lugares com aquela luz branca, asséptica, que revela cada detalhe da limpeza dos que o frenquentam, mas também das sujeiras muitas. É uma afronta à beleza, uma afronta à lucidez, à razão.
Seus gestos errantes e errados estendem os membros na direção do que resta do humano bicho dentro do homem, a bunda da senhora que passa, a garrafa de água do atleta, a marmita do trabalhador e o carro-abrigo do jovem de cabelo lavado que liga o motor.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Sessão das 10

Dá-se a descarga. Ou melhor, a água de alimento reciclado vai cano abaixo. E termina nossa história. Ou melhor, começa. Quero ir, que o aeroporto espera. E no apartamento caixa de sapato, dou risada do futuro trapo, e do presente esquálido.
Os sorrisos fabricados desfilam em minha janela, de doutores que vão almoçar e de hippies que ficam em pé nos portões.
Nessa cidade de São Jorge, ou de São Sebastião, delego um futuro que já atravesso, mas você é tão legal. E naturalmente me prendo aqui, é do apego humano. Se ligar na nega e no bolero, no coro que canta junto a você. E quem sabe até, numa sessão das dez, você me oferece uma pipoca e eu caso contigo.
Quero ir à sua essência, me embrenhar e me tornar um só contigo. Mesmo você sendo predadora, te caçarei como presa. Vou mergulhar, e mesmo que seu âmago seja tão azedo a ponto de queimar minha língua, preciso ir. Deixo na superfície uma bóia amarrada ao pé. Porque é mesmo pelo pé que teria que ser puxado, pra ter que levantar depois o corpo todo de novo.
Eu queria me mandar. Mas não necessariamente isso emplica em te abandonar, e sair daqui, talvez seja mesmo me mandar no sentido de mandar em mim.
Você me deixou. Me abandonou em teu próprio seio, desorientado pra te achar, já dentro de ti.
Mesmo assim, vou botar pra ferver. Ou mudo de lugar, ou mudo o lugar. Quero poder estar em alguma terra em que possa pensar que ali, todo mundo está feliz. E não preciso fazer isso saindo daqui, faço aqui mesmo.
Eu vou sentir saudade desse assanhamento todo da cidade grande, mas se precisar construo uma cidade maior ainda, mesmo que na minha cabeça. E aí, boto pra guerra, e acho graça.
Pra ficar muito tranquilo, sem precisar dizer adeus. Ter amor e liberdade, pra ter toda essa cidade dentro do meu coração.

sábado, 27 de março de 2010

Poema em linha reta (Álvaro de Campos)

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo.
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.

Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...

Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó principes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?

Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?

Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

(de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa)