Os solitários não são, necessariamente, infelizes. Muitas vezes, inclusive, ocorre justamente o contrário. Têm um vasto mundo à sua disposição. Se inundam com riquezas de suas próprias hortas, e com as colheitas feitas por outras almas, disponíveis em forma de livros, discos, pinturas, ideias. Têm, frequentemente, alguma habilidade como o domínio de um instrumento musical, ou de técnicas artísticas das mais variadas, para que possam, mais do que passar o tempo, dar vazão a pensamentos e sentimentos, entrar em estado meditativo, disciplinar corpo e mente. Não deixam, claro, de se relacionar com pessoas, mas somente na medida em que o universo delas não entre em conflito com o seu a ponto de arriscar anulá-lo. Gostam bastante, inclusive, de conversar, mas preferem papos a dois, onde podem explorar o universo de seu interlocutor, com a clareza e a sinceridade dificilmente obtidas em um encontro social a três ou mais. Podem apreciar, em maior ou menor grau, o contato contemplativo com a natureza - praias, florestas, mirantes - onde sentem alívio, êxtase, e maior abertura mental/espiritual para expandir a capacidade de ver as coisas como elas são. Suas ideias e criações inundam o mundo, pegam e arrebatam os espíritos mais sensíveis, alteram percepções, abrem janelas. Portanto, caso veja uma pessoa sozinha em um parque, possivelmente com um caderno ou livro em mãos, com o olhar perdido, aparentemente apático e desocupado, não se engane: pense que esse indivíduo pode ser um desses seres, a desconstruir e reinventar todo um universo.
sexta-feira, 18 de julho de 2014
domingo, 6 de julho de 2014
Noite em vermelho
Creio que eu me perderia. Aliás, já me perdi. Então... adeus! Espere, voltei. Recomeçar... do começo.. 1, 2 e 3 também... Aonde estou agora? Para que lugares minha mente escapou? Sei que vi uma linda luz vermelha moldando suavemente o ambiente, jogando seus brilhos através da linda luminária de vidro, para cima, para baixo, e para dentro. Sei que cavalguei meus dedos sobre as cordas, sentindo o honesto som do pinho, ressoando, ecoando em minha mente, e um segundo nome para a Liberdade, eu inventei, eu vislumbrei, mesmo que por alguns instantes, ali. Remédio para a alma. Eu pedi Força, pedi Clareza, pedi Sabedoria para distinguir os meus caminhos, pedi Iluminação aos meus irmãos e irmãs. Pedi paz, pedi amor, pedi discernimento, pedi mais. Mas também agradeci, pois é importante agradecer. Piso firme em meu chão, com minha mente devidamente alojada no infinito do espaço, e é por isso que agradeço. Agradeço ao alimento que posso comer, a casa em que posso descansar, procurar abrigo, me banhar, me aninhar. Abençoei - e com que força - as iluminadas pessoas que encontraram com os deuses, dançaram ao redor das galáxias, voltaram e traduziram em MÚSICA aquilo que por lá sentiram, viram, viveram. Repousei minha cabeça sobre um macio e confortável travesseiro feito de nuvens, das mais tenras, do algodão mais nobre, coberto pelo tecido mais elaborado, feito com todo o esmero, com todo o cuidado, com toda sabedoria. Assisti atônito à beleza do dançar de minhas mãos, devidamente iluminadas pela rúbea clareza que emanava do lustre. Quanta harmonia, quanta sabedoria, havia ali! No entrelaçar e desentrelaçar de meus dedos, em sua dança, vi todo o universo. As junções e as separações, os vazios e os cheios, tudo, ali, apenas vendo minhas mãos dançarem. Quantas ideias tive, quanta vontade de fazer coisas, de conhecer, de explorar, de respirar os diversos aromas que esse vasto mundo oferece tão generosamente. Não esqueci, claro, da dor. Sim, ela está aí, e tem seu lugar. E procurei - e pedi - sabedoria, justamente para não ignorá-la, mas para saber que ela tem seu lugar, e não deixar que ela invada outros lugares, que não tem nada que ver com ela, aonde ela viraria apenas uma parasita, se alimentando em mesa que não deve. Pensei em todas as pessoas que amo, e o quanto eu tenho que melhorar meu amor, torná-lo mais sábio, saber quando ir e quando voltar, quando falar e quando silenciar. Poderia dizer muito mais, mas acho melhor ter um pouco desse agridoce sabor de deixar o dito pelo não-dito, essa luz escapando da fresta, que dá vontade de olhar pra ver o que tem dentro, mas é gostoso demais saborear o mistério. Sim, o Mistério. Não se engane, ele está lá. Naquele devaneio entre uma colherada e outra, naquele sonho do qual você não se lembra muito bem ao acordar, naquela súbita sensação de ter decifrado um intrincado código do universo durante uma caminhada pela cidade. E, para deixar assim, com sabor de quero-mais, me despeço, sempre com uma canção no coração. PAZ.
quarta-feira, 14 de maio de 2014
Sem nome ou Uni Versos
Espiando a lua cheia
E as esparsas nuvens
Que dançavam logo abaixo
Com suas formas vagas
E cores transformadas
Pelo brilho do satélite
Naquela transparência
Pude observar
Todo o universo
E as esparsas nuvens
Que dançavam logo abaixo
Com suas formas vagas
E cores transformadas
Pelo brilho do satélite
Naquela transparência
Pude observar
Todo o universo
domingo, 6 de abril de 2014
Presença
Venus brilhava forte no céu. De repente, cessaram os violões e tambores. Um silêncio de respeito e veneração se fez, e então somente as vozes entoaram seu canto. Com o clamor, Oxum se fez presente. Era possível sentir sua presença e, ao fechar os olhos, ela dançava em águas, iluminando de azul as mais doces visões. Como uma mãe, embalando nosso sono de criança. Esmeralda fina, abençoando os presentes. Então os cânticos cessaram, e novamente a quietude, já plena de bênção, se instaurou. Talvez que ela tenha ficado para a festa, talvez que tenha saído. Mas esteve ali, agraciando com sua grandiosa presença. Aiêê Mamãe Oxum...
segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014
Sobre o Som
"Não há som sem pausa. O tímpano auditivo entraria em espasmo. O som é presença e ausência,e está, por menos que isso apareça, permeado de silêncio. Há tantos ou mais silêncios quantos sons no som, e por isso se pode dizer, com John Cage, que 'nenhum som teme o silêncio que o extingue. Mas também, de maneira reversa, há sempre som dentro do silêncio: mesmo quando não ouvimos os barulhos do mundo, fechados numa cabine à prova de som, ouvimos o barulhismo do nosso próprio corpo produtor/receptor de ruídos (refiro-me à experiência de John Cage, que se tornou a seu modo um marco na música contemporânea, e que diz que, isolados experimentalmente de todo ruído externo, escutamos no mínimo o som grave da nossa pulsação sanguínea e o agudo do nosso sistema nervoso).
O mundo se apresenta suficientemente espaçado (quanto mais nos aproximamos de suas texturas mínimas) para estar sempre vazado de vazios, e concreto de sobra para nunca deixar de provocar barulho."
Zé Miguel Wisnik, em "O Som e o Sentido"
segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014
A motoserra e o trovão
Aqui nesta cidade, na rua ao lado, estão cortando uma árvore com uma motoserra. Ao acordar assustado com o incômodo ruído produzido por tal ato, e após recuperar um pouco as faculdades mentais do estado de vigília, começo a pensar no simbolismo que o fato carrega. O barulho é quase insuportável, sobretudo para os ouvidos mais sensíveis. É a própria definição de poluição sonora. Alguém sobe em uma plataforma, escada, ou na própria planta, com um objeto altamente cortante, movido a combustível, corta seus grossos galhos, e nesse gesto são produzidos os tais ruídos. Talvez seja mesmo necessário: a árvore poderia estar velha, e a queda de uma parte sua poderia ferir gravemente um transeunte; ou ainda, a mesma poderia se enroscar na rede elétrica, causando um curto-circuito, ou algo similar. Porém, o que se pretende enfatizar aqui é a carga simbólica que esta ação carrega em si, não necessariamente como uma crítica urbanista de teor ecológico, ou como denúncia, mas sobretudo como uma despretensiosa apreciação estética. Para dizer o óbvio, a motoserra cortando a árvore representa o triunfo do ser humano sobre a natureza. Uma ferramenta desenvolvida, que numa sequência evolutiva remete desde itens rudimentares feitos de pedra ou ossos para cortar objetos, passando pela serra manual, e aqui chegando, poderosa, cortando até mesmo os mais espessos galhos, até o tronco se necessário, de uma frondosa planta. Mesmo tendo esta algo de grandioso, de imponente, seja por seu tamanho, pelo brilho radiante de suas lindas folhas verdes à luz do sol, tudo isso não é páreo para um objeto relativamente pequeno, que pode reduzir a árvore a pedaços em questão de horas, desfazendo, neste curto tempo, tudo o que aquela fez em, sabe-se lá, talvez uma centena de anos. O ritmo da cidade, dos transeuntes, fios elétricos, postes, carros, prédios, se impõe perante os passarinhos e seus ninhos, os saguis que vão se pendurando de galho em galho, gritando, os morcegos que sobrevoam em sua busca noturna por algum fruto. E aí, o que era tronco, galhos, folhas, se transforma em lenha, madeira, lixo. Os garis varrerão, sob o sol, os restos da planta de quem, sob sua sombra, antes varriam somente as folhas. Mas, voltemos ao som. Aquele penetrante, agudo, volumoso barulho produzido pelo ato do corte. Aquele grito estridente e sofrido de amputação, o choro final da perda da vida. Mas, além de ser um sofrimento, de parte da planta, também é o estrondoso brado do triunfo da máquina, ostentando sua vitória aos quatro cantos. Pois o farfalhar das folhas ao vento, e mesmo o canto dos passarinhos, saguis, e outros bichos que frequentam a árvore, não é nada se comparado ao retumbante ruído do metal violando a madeira. É o hino entoado pela vitória, sem ao menos precisar chegar ao fim da partida, gritos de quem já tem o jogo ganho. Mas me ocorre, ao tentar imaginar algo mais sonoramente potente de qualquer coisa que possa ser produzida pela mão humana, ou pelo menos equivalente, de lembrar do trovão. Esse belo e imponente elemento da natureza, faceta sonora da descarga elétrica do raio, contém grande poder. Pode se ouvir seu soberbo retumbar alto e claro a grandes distâncias do ponto em que ocorre, enquanto o relâmpago clareia o escuro céu. Quantas poderosas divindades ao redor do mundo, nas mais variadas culturas, não tem como privilégio o domínio dos raios? E estes, em apenas um piscar de olhos do céu, podem derrubar e incendiar aquela mesma árvore sendo cortada pela motoserra. Aí, a próxima coisa a se pensar é no para-raios. Uma genial invenção humana que previne os efeitos destrutivos dessas descargas elétricas celestes. Porém, restritamente em relação ao som, ou seja, ao trovão, nada pode ser feito, ao menos por enquanto. Por aqui, não chove há algum tempo. Contudo, aguardo ansiosamente pela chegada dessa poderosa música celeste.
segunda-feira, 27 de janeiro de 2014
Além
negros pântanos, e fumaça
e além daquilo, há o sol
pontes quebradas, não se passa
e além daquilo, há o sol
os passos seguem
um após o outro
como há de ser
e depois
o sol
haja o que houver
e além daquilo, há o sol
pontes quebradas, não se passa
e além daquilo, há o sol
os passos seguem
um após o outro
como há de ser
e depois
o sol
haja o que houver
Assinar:
Postagens (Atom)
