domingo, 5 de agosto de 2012

Concreta

De onde veio essa ... impressão?
Dos prédios e tédios?
Que importa, se a esta hora
sua porta bate em minha cara?

Encontro as esquinas da cidade
Indiferentes à minha presença
Suas fachadas me virando o rosto
Seus edifícios altos demais
Para que eu possa alcançá-los

Alguns passos, e continuo aqui
Estou no Mundo
E mesmo com a luz do dia
Não vejo as paredes pichadas
Com suas declarações de amor

Algumas ruas depois
Repleto de abstrações
Atravesso o concreto
Para além de mim

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Passeio privado e público

Entrando pelos arbustos que estão ao lado daquela casa marrom, na rua 13, entra-se no espaço proibido. Os vizinhos, ao verem os jovens chegando, recriminam, receosos, a entrada naquele lugar secreto, cochichando entre portões a atitude contestadora, estúpida, da exploração do que não deve ser contemplado. Mas o sangue, que corre curioso por entre as inexploradas veias da inquietude da juventude, inflama o desejo do inexplorado, do marginal, daquilo que parece a liberdade. Lá, onde a luz explode em infinitos feixes, fragmentos de cores excitam a sensibilidade e a imaginação. Onde se brinca com a plasticidade do sensorial, expandindo fronteiras para até onde seus limites o permitem. Lá, onde a máquina burocrata, que a todos engole, não entra.
No maravilhoso jardim, onírica permanência no estado desperto, o grupo aperta os cintos para ir além dos painéis luminosos que os hipnotizam, penetrando sua própria natureza, usando-os a seu bel prazer. O mergulho na consciência sensorial é profundo, mas ela ainda é apenas o raso. A interiorização se completa em estágios mais avançados, para além das ondas que ainda podem ser usadas para a criação da consensual dominação do aparato do ser.

Mergulho profundo... o mar a dissolver.

De onde vem essas estacas metálicas a perfurar o macio solo, a profanar o bendito pródigo, a desfazer o cimento sólido de nossas massas cinzentas? O barulho de plástico borbulhante derretendo alcança as margens do concreto, incitando a insegurança em nossas almas tão frescas, prontas para serem embaladas. Apesar deles, conseguimos alcançar a porta de onde vinha aquele suave som das estrelas a piscar. Um passo adentro e já não há mais depois. O vermelho fluido das vias ganha corpo em avenidas onde caminhamos por sobre a água. Corremos, então, e o olhar ultrapassa a si mesmo, os pontos de luz agora virando feixes contínuos que rapidamente se contraem e se expandem perante um perplexo perceber. Comemos as galáxias no café da manhã, e regurgitamos todo o universo, no jantar do dia anterior. Irreprimível manifestação em passeio pela coletividade subjetiva. Transubstanciação. Explosão. Depois, silêncio por algum tempo.

Rápidas braçadas... de volta à superfície.

Do lado de cá do espelho, uma intensa chuva cai e atinge os ossos de nossas ruas desgastadas. Alertas, os mergulhadores saem da zona proibida, vendo tudo com os olhos de quem esteve do outro lado. Passo a passo, os adormecidos se entrecruzam, enquanto os despertos se entreolham, indagando mutuamente: o quê fazer? Desligar. Desconectar todos os fios da doença generalizada espalhada pelos conectores das poluídas entidades. Quando começar: talvez agora mesmo. Hoje, a cidade não vai dormir tão cedo.


sábado, 27 de agosto de 2011

Das coisas frágeis

"Enquanto escrevo isto, me ocorre que a peculiaridade da maioria das coisas que consideramos frágeis é o modo como elas são, na verdade, fortes. Havia truques que fazíamos com ovos, quando crianças, para demonstrar que eles são, apesar de não nos darmos conta disso, pequenos salões de mármore capazes de suportar grandes pressões, e muitos dizem que o bater de asas de uma borboleta no lugar certo pode criar um furacão do outro lado de um oceano. Corações podem ser partidos, mas o coração é o mais forte dos músculos, capaz de pulsar durante toda a vida, setenta vezes por minuto, não falhando quase nunca. Até os sonhos, que são as coisas mais intangíveis e delicadas, podem se mostrar incrivelmente difíceis de matar.
Histórias, assim como pessoas, borboletas, ovos de aves canoras, corações humanos e sonhos, também são coisas frágeis, feitas de nada mais forte ou duradouro do que 26 letras e um punhado de sinais de pontuação. Ou então são palavras no ar, compostas de sonhos e idéias - abstratas, invisíveis, sumindo no momento em que são pronunciadas -, e o que poderia ser mas frágil que isso? Mas algumas histórias, pequenas, simples, sobre gente embarcando em aventuras ou realizando maravilhas, contos de milagres e de monstros, perduram mais do que todas as pessoas que a contaram, e algumas perduram mais do que as próprias terras onde elas foram criadas."

Neil Gaiman, na introdução do livro de contos "Coisas Frágeis"

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Ao Silêncio

Canto silencioso

Enquanto o ruído reina
Sem piedade sobre o súdito silêncio
Este se aborrece
Pronto: domina por um momento
Mas logo se esquece...

O barulho se espalha
Em múltiplos instantes banais
Fugaz cacofonia em mil rebentos

Não mais o farfalhar do vento
Ou o suave bater das ondas na areia
Que namoram, beijam, amam o silêncio
Mesmo que acabem por desfazê-lo

Se acaba o acalanto em grito
Em berro se transformam os suaves cantos
O vibrar melodioso da corda tensa
Interrompido por pavorosos estrondos

Vencem as britadeiras e ambulâncias
Vozes da metrópole mundana
A harmonia sonora suave e densa
Jorrando da alma a longa distância
Que é quase a quietude da paz
A meia-luz do ambiente auditivo
Que, cantando, venera o silêncio

Noite adentro o barulho ofusca
Interrompe o carinho e o alento
Entre a quieta paz do firmamento
E o som que não perturba o que se cala

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Imenso

Silêncio e escuridão
São ambiências
de uma outra dimensão

A estância da alma
que não colore
nem fala

Mesmo que contenha
toda a luz
e o absoluto som

quinta-feira, 16 de junho de 2011

Fugaz

Passa rápido feito um trovão, mas não é chuva não. É a roupa da liquidação, o último sermão, sem carregar qualquer cruz. É fugaz e é no pique que se passa por cima do caminho. Quando se quer escorregar em pedra ensaboada, é lá. No risco, no chão, em cima de corda bamba que cisma em não ser. Mantém a porta ali no lugar e mata a conversa num papo de bar. Se escalar rápido vai cair, se demorar não sei não. Melhor me jogar de pano no lugar seguro do chão.

(texto de 2007)

sábado, 11 de junho de 2011

Bicho homem

Abutres, porcos, ratos, burros. Nomes de animais que, entre outros, são usados de maneira pejorativa para classificar os seres humanos, tornando-se adjetivos. Coitados desses bichos. Levianamente, têm suas figuras rebaixadas às mesquinharias, maldades e outros defeitos que são próprios dos homens e mulheres, e não deles! Os abutres, que voam altivos, e planam nos ventos, que procuram carnes decompostas e ajudam a purificar o mundo, livrando-se dos restos mortais de animais que entregaram suas almas. Os porcos, que se alimentam de restos vegetais, evitando que sejam desperdiçados, que docilmente criam suas famílias, as porcas amamentando generosamente seus belos filhotes. Os ratos, ágeis e inteligentes, e que só transmitem doenças devido ao ambiente em que vivem (geralmente locais criados por seres humanos). O burro, animal forte e resistente, talvez até mais astuto do que aqueles que os ofendem gratuitamente. Pois então imagine que alguém utilize o seu nome como um termo pejorativo, que ofensa isso demonstraria para você. Por acaso não são os homens e mulheres, e não somente os abutres que rodeiam à procura de alguém que está se dando mal, para com sua desgraça se darem bem? Não é a humanidade que suja e polui sua própria morada (a Terra), o que é relegado somente à imagem do porco? Não são alguns seres humanos que transmitem doenças a outrem (como os portugueses transmitiram a índios brasileiros), ao invés de serem somente os ratos? Não é esse ser dito pensante que cria problemas que não pode resolver, que insiste em fazer coisas que não são prudentes, do que é acusado o pobre burro? O homem não é abutre, nem porco, nem rato, nem burro. Infelizmente.

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Arte e Mágica

"Mágica, em sua forma mais antiga, é frequentemente chamada de 'a arte'. Eu acredito que isso seja completamente literal. Eu acredito que mágica é arte e que arte, seja a escrita, música, escultura ou qualquer outra forma, é literalmente mágica. Arte é, assim como mágica, a ciência de manipulação de símbolos, palavras ou imagens, para alcançar mudanças na consciência." Alan Moore

* retirada do filme "The Mindscape of Alan Moore", que pode ser visto aqui (com legendas em inglês) -> http://www.youtube.com/watch?v=rvcPVxzhTLQ&feature=channel_video_title
*tradução minha